Como a violência doméstica impacta empresas e ambientes de trabalho?

Do aumento do absenteísmo à segurança dos colaboradores, a violência doméstica impacta o ambiente de trabalho mais do que você imagina, mas sua empresa pode se preparar para agir corretamente.

EMPRESASCOMPLIANCEVIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Ana Paula Braga e Rebeca Servaes

8/10/20263 min read

Durante muito tempo, a violência contra a mulher foi tratada como um problema exclusivamente privado, restrito ao ambiente doméstico e às relações familiares. Ou, no máximo, a um problema que cabe ao Estado resolver.

Hoje, essa compreensão mudou.

Embora a violência geralmente aconteça fora da empresa, seus impactos acompanham a vítima em todas as dimensões da vida — inclusive no trabalho. Por isso, cada vez mais organizações têm reconhecido que prevenir e acolher situações de violência também faz parte da construção de ambientes de trabalho seguros e saudáveis.

A violência não fica do lado de fora da porta da empresa

Quem enfrenta uma situação de violência continua exercendo diversos papéis ao longo do dia: mãe, filha, amiga, estudante e, muitas vezes, colaboradora. A violência não desaparece quando a jornada de trabalho começa. Pelo contrário, ela acompanha a vítima e pode comprometer sua saúde física, emocional e sua capacidade de desempenhar suas atividades profissionais.

Uma mulher que vive um contexto de violência pode enfrentar noites mal dormidas, ansiedade constante, medo, dificuldades de concentração e sintomas de depressão. Também é comum que precise faltar ao trabalho para se proteger, comparecer delegacias, audiências, atendimentos médicos ou psicológicos, buscar medidas protetivas ou reorganizar sua vida e a de seus filhos. Tudo isso pode refletir em atrasos, absenteísmo, queda de produtividade e maior necessidade de afastamentos.

Além dos impactos emocionais, o agressor frequentemente utiliza estratégias de controle que interferem diretamente na rotina profissional da vítima. Ligações e mensagens incessantes durante o expediente, monitoramento de horários, exigência de envio da localização em tempo real, controle financeiro e tentativas de impedir que a mulher trabalhe são formas de violência que ultrapassam o ambiente doméstico e alcançam o espaço de trabalho.

Em situações mais graves, o local de trabalho pode, inclusive, tornar-se cenário de novos episódios de violência. Há casos em que o agressor aparece na empresa para intimidar a vítima, ameaça colegas, provoca constrangimentos ou utiliza o ambiente profissional como forma de perseguição. Nessas circunstâncias, a preocupação deixa de envolver apenas a colaboradora e passa a abranger também a segurança da equipe e da própria organização.

Esses impactos demonstram que, embora a origem da violência em geral esteja fora da empresa, suas consequências são vivenciadas diariamente dentro dela. Por isso, o ambiente de trabalho pode representar muito mais do que um local de prestação de serviços: pode ser um espaço de acolhimento, proteção e acesso à informação para mulheres que, muitas vezes, encontram na rotina profissional uma das poucas redes de apoio disponíveis.

O papel da empresa não é substituir a rede de proteção

Ao reconhecer esses impactos, algumas organizações se perguntam se estariam assumindo uma responsabilidade que pertence ao Estado.

A resposta é não.

A empresa não deve investigar casos nem substituir os serviços públicos de proteção.

Seu papel é outro: criar condições para que colaboradoras encontrem um ambiente seguro, acolhedor e preparado para orientar os próximos passos quando necessário, e evitar a revitimização das mulheres nessa situação.

Isso significa desenvolver processos claros, capacitar lideranças e garantir que as pessoas saibam para onde encaminhar uma situação de violência.

O ambiente de trabalho pode ser um espaço de proteção

Muitas mulheres passam mais tempo no trabalho do que em qualquer outro espaço de convivência social.

Por isso, colegas, gestores e profissionais de Recursos Humanos podem ser as primeiras pessoas a perceber mudanças de comportamento ou a receber um pedido de ajuda.

Quando existe preparo, esse primeiro acolhimento pode contribuir para que a colaboradora acesse a rede de proteção, preserve sua segurança e encontre apoio em um momento de extrema vulnerabilidade.

Quando não existe preparo, mesmo atitudes bem-intencionadas podem resultar em julgamentos, exposição indevida ou encaminhamentos inadequados.

O primeiro passo é entender o nível de preparação da sua empresa

Reconhecer que a violência contra a mulher também impacta o ambiente de trabalho é apenas o começo.

A próxima pergunta é ainda mais importante:

Sua empresa está preparada para acolher uma colaboradora em situação de violência?

Na próxima publicação da nossa série especial de Agosto Lilás, vamos apresentar uma ferramenta prática para ajudar organizações a responder essa pergunta e identificar oportunidades de fortalecimento de seus processos de prevenção e acolhimento.

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